Curaçao mostra bastidores dos primeiros dias de Copa do Mundo; veja vídeo
Quando Alemanha e Curaçao entrarem em campo neste domingo, às 14h (de Brasília), em Houston, mais um recorde na Copa será batido: o holandês Dick Advocaat será o treinador mais velho na história das Copas do Mundo.
Aos 78 anos, o holandês irá superar a marca do alemão Otto Rehhagel, que tinha 71 quando foi técnico da Grécia em 2010, na África do Sul.
Dick Advocaat, o incansável treinador de Curaçao
Reprodução
Esse é mais um de tantos exemplos na vida desse holandês durão que busca enfrentar as adversidades da vida e se recusou a parar mesmo nos mais difíceis momentos, ou até mesmo quando ele dizia: é meu último emprego!
+ Carisma sobre rodas: delegação de Curaçao usa ônibus escolar antigo antes de amistoso; veja
+ Quem é o amigo de Memphis que quase jogou Copa pela Holanda e virou esperança de gols de Curaçao
Depois de conduzir Curaçao à primeira Copa do Mundo de sua história, o treinador deixou o cargo para acompanhar o tratamento de câncer da filha. A melhora no quadro de saúde da filha e a saída de Rutten mudaram tudo, a ponto de Advocaat pedir o cargo de novo para disputar sua segunda Copa do Mundo.
Porque ele é assim: imparável.
São mais de 40 anos de carreira, 20 clubes e uma marca: o treinador bombeiro por essência que se recusa a parar.
Nascido em 1947, em Haia, cresceu numa família humilde com cinco filhos. Antes de viver do futebol, deu aulas de educação física e trabalhou instalando tetos. Quando se profissionalizou jogador na década de 1960, jogava de mangas curtas e meias abaixadas, mesmo diante da violência do futebol holandês pré-Yohan Cruyff.
Talvez uma forma de se destacar, já que não era técnico, muito menos habilidoso ou alto: com apenas 1,70m de altura, destoava bastante do estereótipo do holandês grandão.
Uma carreira por acidente
Dick Advocaat enqaunto jogador na década de 1960
Getty Images
A carreira de treinador começou quase por acidente. No início dos anos 1980, seu irmão mais velho, Jaap Advocaat, recebeu uma proposta para comandar uma equipe amadora que atuava aos sábados. Sem interesse pelo cargo, indicou Dick, então professor de educação física. Durante quatro anos, Advocaat conciliou as aulas em Utrecht com os treinos da equipe, mergulhando numa profissão que logo virou obsessão.
Em 1984, recebeu uma ligação de…..Rinus Michels, o lendário treinador da seleção holandesa e criador do apelido “O General”. Michels buscava alguém com personalidade forte para ajudar a reconstruir uma Holanda que tentava encontrar um novo rumo após a era de Johan Cruyff. Advocaat acreditou que se tratava de uma brincadeira e desligou o telefone. Michels se tornaria o mentor que moldaria sua carreira.
O período como auxiliar fez Advocaat ganhar o apelido que o acompanharia pelo resto da vida: “O Pequeno General”. Seus primeiros trabalhos confirmaram a impressão. Em 1990, conduziu o SVV ao título da segunda divisão holandesa. No mesmo ano, voltou a trabalhar com Rinus Michels como assistente da seleção, sendo o sucessor natural após a Eurocopa de 1992.
Treinador daquele fantástico Brasil 3 x 2 Holanda na Copa de 1994
A transição aconteceu em meio a turbulências, incluindo um rompimento público com Ruud Gullit durante as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. Apesar da pressão e da expectativa de que Johan Cruyff assumisse a seleção, Advocaat permaneceu no cargo e levou a Holanda até as quartas de final do Mundial nos Estados Unidos, sendo eliminada naquele Holanda 2×3 Brasil. Jogão!
Valorizado após a Copa do Mundo, Advocaat foi treinar o PSV, sendo técnico de Ronaldo Nazário antes de ele se tornar o Fenômeno. Em quatro temporadas, conquistou uma Copa da Holanda, dois títulos da Supercopa e, em 1997, levou o PSV ao título da Eredivisie.
Advocaat e Ronaldo em 1995
Reprodução
Em 1998, assumiu o Rangers e tornou-se o primeiro treinador estrangeiro da história do clube escocês. Encontrou um elenco envelhecido, promoveu uma profunda renovação e conquistou a tríplice coroa doméstica logo de cara. No ano seguinte, mais uma vez campeão escocês.
Com investimentos cada vez maiores, a pressão aumentou. Advocaat não hesitou em criticar publicamente alguns jogadores, a quem chegou a chamar de “pescoços gordos”, enquanto o Celtic retomava a hegemonia no futebol escocês. Deixou o cargo em dezembro de 2001.
A amizade com Louis van Gaal
Depois do Celtic, Advocaat foi indicado pelo seu melhor amigo para uma missão dura: assumir a Holanda em momento turbulento. O amigo em questão é apenas Louis van Gaal. Os dois jogaram juntos no Sparta Rotterdam no início dos anos 1980 e rapidamente se tornaram amigos.
Na década de 1990, viraram rivais entre PSV e Ajax. Buscando explorar a amizade, os dois foram convidados a um ensaio fotográfico antes do clássico, e a chegarem no local, encontraram duas modelos seminuas, já pintadas com as cores dos clubes. É a imagem mais noventista que você verá nessa Copa do Mundo!
Van Gaal e Advocaat antes de um clássico holandês na década de 1990: mais novestista, impossível
Reprodução
A campanha na Eurocopa de 2004 foi duramente criticada pela imprensa. Uma polêmica substituição, a de retirar Arjen Robben para colocar o volante Paul Bosvelt para segurar um 2 a 1 contra a República Tcheca, tornou-se símbolo de seu trabalho. O jogo terminou 3 a 2 para os tchecos. Advocaat chegou a ser ameaçado de morte e renunciou logo após a eliminação para Portugal de Luiz Felipe Scolari, num jogo até hoje lembrado pela pancadaria.
A segunda passagem do Pequeno General pela seleção holandesa acabou fazendo mal à sua carreira. Depois de deixar o Rangers, Advocaat iniciou uma fase de trabalhos curtos em seleções nacionais. Em 2005, trocou os Emirados Árabes Unidos pela Coreia do Sul poucas semanas após assumir o cargo e conduziu os sul-coreanos na Copa do Mundo de 2006.
O recomeço veio na Rússia. Em 2006, poucos meses após deixar a Coreia do Sul, Advocaat assumiu o Zenit São Petersburgo num momento decisivo para o clube. A Gazprom, gigante estatal do setor de gás natural, havia acabado de assumir o controle da equipe e iniciado um projeto ambicioso de investimentos.
Em três temporadas, conquistou o primeiro título russo do Zenit na era pós-União Soviética, venceu a Copa da Uefa e derrotou o Manchester United na Supercopa da Uefa, transformando o clube numa potência continental. O sucesso o aproximou de Vladimir Putin, torcedor declarado do Zenit.
Em uma conversa, o presidente russo perguntou o que era liderança. Advocaat respondeu: “Se você ou eu entrarmos numa sala e ela ficar em silêncio, isso é liderança”.
Dick Advocaat orienta jogador de Curaçao durante jogo
Reuters
Antes mesmo de ser demitido do Zenit, já havia acertado um contrato para assumir a seleção belga, mas abandonou o projeto poucos meses depois para aceitar o convite da Rússia, decisão que provocou forte repercussão no país.
No comando dos russos, classificou a equipe para a Eurocopa de 2012 e chegou ao torneio cercado de expectativas, mas uma eliminação precoce na fase de grupos interrompeu o embalo. Os trabalhos se tornaram cada vez mais curtos.
Em 2015, Advocaat prometeu pela primeira vez que iria parar. Contratado pelo Sunderland com o clube afundado na zona de rebaixamento da Premier League, assumiu o comando a nove rodadas do fim e conseguiu evitar a queda. A permanência foi confirmada após um empate contra o Arsenal, resultado que colocou Advocaat em lágrimas na coletiva de imprensa.
Advocaat em prantos ao salvar o Sunderland de um rebaixamento praticamente consumado em 2015
Reprodução
Mas é muito difícil sair do futebol para um homem que sempre enxergou o esporte como um preenchimento de sua vida. Ele não deixou saudade no PSV, AZ Alkmaar, Sérvia e outros projetos cada vez mais curtos. O padrão era sempre o mesmo: aparecer quando havia um problema para resolver e anunciar a aposentadoria logo depois.
Foi uma surpresa quando, já rico, quieto e curtindo a vida com a esposa, ele foi anunciado como treinador de Curacao.
Todos os adversários do grupo, Alemanha, Costa do Marfim e Equador, são mais fortes em praticamente todas as posições. O goleiro titular, Eloy Room, estava sem clube quando a equipe garantiu a classificação. Já o terceiro goleiro, reserva do pequeno Telstar, da Holanda, jamais disputou uma partida profissional.
O treinador é claro: “Não seremos a equipe mais ofensiva da Copa do Mundo”, diz Advocaat. Em resumo, jogarão o futebol de Advocaat: pragmático, competitivo e sem ilusões.
E depois da Copa? Como o próprio treinador já disse:
“Você pode anotar que vou parar de treinar, mas comigo nunca se sabe.”
Capitão Leandro Bacuna e treinador Dick Advocaat, de Curaçao, em entrevista coletiva em Houston antes de estreia na Copa do Mundo
Annegret Hilse/Reuters
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Dick Advocaat, o incansável treinador de Curaçao
Reprodução
Esse é mais um de tantos exemplos na vida desse holandês durão que busca enfrentar as adversidades da vida e se recusou a parar mesmo nos mais difíceis momentos, ou até mesmo quando ele dizia: é meu último emprego!
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São mais de 40 anos de carreira, 20 clubes e uma marca: o treinador bombeiro por essência que se recusa a parar.
Nascido em 1947, em Haia, cresceu numa família humilde com cinco filhos. Antes de viver do futebol, deu aulas de educação física e trabalhou instalando tetos. Quando se profissionalizou jogador na década de 1960, jogava de mangas curtas e meias abaixadas, mesmo diante da violência do futebol holandês pré-Yohan Cruyff.
Talvez uma forma de se destacar, já que não era técnico, muito menos habilidoso ou alto: com apenas 1,70m de altura, destoava bastante do estereótipo do holandês grandão.
Uma carreira por acidente
Dick Advocaat enqaunto jogador na década de 1960
Getty Images
A carreira de treinador começou quase por acidente. No início dos anos 1980, seu irmão mais velho, Jaap Advocaat, recebeu uma proposta para comandar uma equipe amadora que atuava aos sábados. Sem interesse pelo cargo, indicou Dick, então professor de educação física. Durante quatro anos, Advocaat conciliou as aulas em Utrecht com os treinos da equipe, mergulhando numa profissão que logo virou obsessão.
Em 1984, recebeu uma ligação de…..Rinus Michels, o lendário treinador da seleção holandesa e criador do apelido “O General”. Michels buscava alguém com personalidade forte para ajudar a reconstruir uma Holanda que tentava encontrar um novo rumo após a era de Johan Cruyff. Advocaat acreditou que se tratava de uma brincadeira e desligou o telefone. Michels se tornaria o mentor que moldaria sua carreira.
O período como auxiliar fez Advocaat ganhar o apelido que o acompanharia pelo resto da vida: “O Pequeno General”. Seus primeiros trabalhos confirmaram a impressão. Em 1990, conduziu o SVV ao título da segunda divisão holandesa. No mesmo ano, voltou a trabalhar com Rinus Michels como assistente da seleção, sendo o sucessor natural após a Eurocopa de 1992.
Treinador daquele fantástico Brasil 3 x 2 Holanda na Copa de 1994
A transição aconteceu em meio a turbulências, incluindo um rompimento público com Ruud Gullit durante as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. Apesar da pressão e da expectativa de que Johan Cruyff assumisse a seleção, Advocaat permaneceu no cargo e levou a Holanda até as quartas de final do Mundial nos Estados Unidos, sendo eliminada naquele Holanda 2×3 Brasil. Jogão!
Valorizado após a Copa do Mundo, Advocaat foi treinar o PSV, sendo técnico de Ronaldo Nazário antes de ele se tornar o Fenômeno. Em quatro temporadas, conquistou uma Copa da Holanda, dois títulos da Supercopa e, em 1997, levou o PSV ao título da Eredivisie.
Advocaat e Ronaldo em 1995
Reprodução
Em 1998, assumiu o Rangers e tornou-se o primeiro treinador estrangeiro da história do clube escocês. Encontrou um elenco envelhecido, promoveu uma profunda renovação e conquistou a tríplice coroa doméstica logo de cara. No ano seguinte, mais uma vez campeão escocês.
Com investimentos cada vez maiores, a pressão aumentou. Advocaat não hesitou em criticar publicamente alguns jogadores, a quem chegou a chamar de “pescoços gordos”, enquanto o Celtic retomava a hegemonia no futebol escocês. Deixou o cargo em dezembro de 2001.
A amizade com Louis van Gaal
Depois do Celtic, Advocaat foi indicado pelo seu melhor amigo para uma missão dura: assumir a Holanda em momento turbulento. O amigo em questão é apenas Louis van Gaal. Os dois jogaram juntos no Sparta Rotterdam no início dos anos 1980 e rapidamente se tornaram amigos.
Na década de 1990, viraram rivais entre PSV e Ajax. Buscando explorar a amizade, os dois foram convidados a um ensaio fotográfico antes do clássico, e a chegarem no local, encontraram duas modelos seminuas, já pintadas com as cores dos clubes. É a imagem mais noventista que você verá nessa Copa do Mundo!
Van Gaal e Advocaat antes de um clássico holandês na década de 1990: mais novestista, impossível
Reprodução
A campanha na Eurocopa de 2004 foi duramente criticada pela imprensa. Uma polêmica substituição, a de retirar Arjen Robben para colocar o volante Paul Bosvelt para segurar um 2 a 1 contra a República Tcheca, tornou-se símbolo de seu trabalho. O jogo terminou 3 a 2 para os tchecos. Advocaat chegou a ser ameaçado de morte e renunciou logo após a eliminação para Portugal de Luiz Felipe Scolari, num jogo até hoje lembrado pela pancadaria.
A segunda passagem do Pequeno General pela seleção holandesa acabou fazendo mal à sua carreira. Depois de deixar o Rangers, Advocaat iniciou uma fase de trabalhos curtos em seleções nacionais. Em 2005, trocou os Emirados Árabes Unidos pela Coreia do Sul poucas semanas após assumir o cargo e conduziu os sul-coreanos na Copa do Mundo de 2006.
O recomeço veio na Rússia. Em 2006, poucos meses após deixar a Coreia do Sul, Advocaat assumiu o Zenit São Petersburgo num momento decisivo para o clube. A Gazprom, gigante estatal do setor de gás natural, havia acabado de assumir o controle da equipe e iniciado um projeto ambicioso de investimentos.
Em três temporadas, conquistou o primeiro título russo do Zenit na era pós-União Soviética, venceu a Copa da Uefa e derrotou o Manchester United na Supercopa da Uefa, transformando o clube numa potência continental. O sucesso o aproximou de Vladimir Putin, torcedor declarado do Zenit.
Em uma conversa, o presidente russo perguntou o que era liderança. Advocaat respondeu: “Se você ou eu entrarmos numa sala e ela ficar em silêncio, isso é liderança”.
Dick Advocaat orienta jogador de Curaçao durante jogo
Reuters
Antes mesmo de ser demitido do Zenit, já havia acertado um contrato para assumir a seleção belga, mas abandonou o projeto poucos meses depois para aceitar o convite da Rússia, decisão que provocou forte repercussão no país.
No comando dos russos, classificou a equipe para a Eurocopa de 2012 e chegou ao torneio cercado de expectativas, mas uma eliminação precoce na fase de grupos interrompeu o embalo. Os trabalhos se tornaram cada vez mais curtos.
Em 2015, Advocaat prometeu pela primeira vez que iria parar. Contratado pelo Sunderland com o clube afundado na zona de rebaixamento da Premier League, assumiu o comando a nove rodadas do fim e conseguiu evitar a queda. A permanência foi confirmada após um empate contra o Arsenal, resultado que colocou Advocaat em lágrimas na coletiva de imprensa.
Advocaat em prantos ao salvar o Sunderland de um rebaixamento praticamente consumado em 2015
Reprodução
Mas é muito difícil sair do futebol para um homem que sempre enxergou o esporte como um preenchimento de sua vida. Ele não deixou saudade no PSV, AZ Alkmaar, Sérvia e outros projetos cada vez mais curtos. O padrão era sempre o mesmo: aparecer quando havia um problema para resolver e anunciar a aposentadoria logo depois.
Foi uma surpresa quando, já rico, quieto e curtindo a vida com a esposa, ele foi anunciado como treinador de Curacao.
Todos os adversários do grupo, Alemanha, Costa do Marfim e Equador, são mais fortes em praticamente todas as posições. O goleiro titular, Eloy Room, estava sem clube quando a equipe garantiu a classificação. Já o terceiro goleiro, reserva do pequeno Telstar, da Holanda, jamais disputou uma partida profissional.
O treinador é claro: “Não seremos a equipe mais ofensiva da Copa do Mundo”, diz Advocaat. Em resumo, jogarão o futebol de Advocaat: pragmático, competitivo e sem ilusões.
E depois da Copa? Como o próprio treinador já disse:
“Você pode anotar que vou parar de treinar, mas comigo nunca se sabe.”
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Annegret Hilse/Reuters
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