Pelé e Garrincha estiveram aqui: as memórias em ruínas da primeira vez da Seleção em Teresópolis

Ge visitou as ruínas do hotel em Teresópolis que hospedou Pelé, Garrincha e cia em 1966
Nesta quarta-feira, Carlo Ancelotti e seus convocados vão começar a se apresentar na Granja Comary, em Teresópolis, em preparação para a Copa do Mundo. A cidade serrana será mais uma vez a casa da seleção brasileira – uma relação que teve início exatos 60 anos atrás, muito antes da construção do histórico centro de treinamento da CBF.
A seleção brasileira subiu a serra para treinar para uma Copa do Mundo pela primeira vez em maio de 1966. Dado o fato de que a Granja como é hoje ainda não existia, os bicampeões mundiais treinaram em diferentes locais e agitaram a pacata cidade durante a estadia de duas semanas. Pelé e Garrincha eram as principais estrelas.
Seis décadas depois, as memórias desse episódio encontram-se em ruínas.
Hotel em Teresópolis onde famosa foto de Pelé e Garrincha foi tirada está abandonado
Tébaro Schmidt / ge
Um dos estádios utilizados pela equipe na época, onde a seleção brasileira disputou ao menos dois amistosos que serviram para o técnico Vicente Feola fazer os últimos ajustes antes da Copa disputada na Inglaterra, está irreconhecível. O mato alto cobre as balizas, pessoas em situação de rua usam o local de abrigo e até a placa comemorativa da visita da Seleção foi retirada dali.
O terreno recentemente só escapou de um leilão em razão da ação da prefeitura de Teresópolis, que converteu o imóvel em patrimônio imobiliário municipal e, agora, estuda o que fazer com o estádio onde Pelé e Garrincha pisaram.
Já o hotel que hospedou os jogadores foi desativado e vive situação de completo abandono desde as chuvas que assolaram a Região Serrana do Rio há 15 anos. Com exceção de uma família de caseiros e os cachorros que espantam curiosos, o local que um dia foi referência de hospedagem virou um grande fantasma no meio da mata atlântica.
Um passeio pelos escombros
Imagine o tamanho da agitação nos moradores de Teresópolis 60 anos atrás ao descobrirem que a seleção brasileira campeã mundial em 1958 e 1962 faria na cidade parte da preparação para a Copa do Mundo que seria disputada na Inglaterra. O município recebeu os jogadores em festa, com direito a casa cheia em todas as atividades e curiosos acompanhando cada passo de Pelé e companhia.
Por esse motivo, a então Confederação Brasileira de Desportos (CBD, que só viraria CBF em 1979) decidiu hospedar a delegação no Hotel Pinheiros, um conjunto de chalés localizado em área mais sossegada da cidade, no bairro de Quebra Frascos.
Moradores de Teresópolis cercam restaurante enquanto jogadores da seleção brasileira jantam em 1966
Pro-Memória Teresópolis
Rodeado pela natureza, o hotel se estendia por um terreno de 15 mil m² e tinha capacidade para até 45 pessoas. A seleção brasileira chegou no dia 4 de maio e permaneceu por cerca de duas semanas – depois, seguiu para Belo Horizonte e para Serra Negra, no interior paulista.
O que restou do Hotel Pinheiros são escombros. O portão pesado de madeira maciça, em uma das primeiras saídas da estrada sinuosa que liga Teresópolis a Petrópolis, guarda o local mal preservado. O pouco de movimento que existe provavelmente se deve à placa “vende-se pinhas”, estas espalhadas por toda a extensão do caminho que leva aos antigos chalés.
Portão de acesso ao antigo Hotel Pinheiros, em Teresópolis, onde a seleção brasileira ficou hospedada em 1966
Tébaro Schmidt / ge
O local foi adquirido por um empresário do ramo de transporte no início dos anos 2000. Foi ele que permitiu o acesso da reportagem do ge. O hotel parou de funcionar em 2007 – até 2011, serviu como depósito e ponto de apoio para outros negócios da família, como indica o esqueleto do ônibus da linha Comary x Várzea esquecido na área próxima de onde ficava a piscina.
Esqueleto de um ônibus abandonado no terreno do Hotel Pinheiros, em Teresópolis
Tébaro Schmidt / ge
No interior de um dos prédios, o lixo se mistura com entulho ao longo do chão de madeira podre, com buracos aqui e ali que tornam a aventura perigosa. É de bom tom evitar as escadas. Para não correr risco, a equipe de reportagem ficou apenas no primeiro andar.
O cartaz de aviso fixado em uma das portas ajuda a entender como era a rotina no hotel: café da manhã no restaurante só até as 9h30, nada de óleo de bronzear na piscina, a mesa telefônica na recepção funcionava até as 22h e os hóspedes não podiam largar as toalhas na sauna – se alguma delas desaparecesse, o valor era cobrado fora da diária.
Interior do Hotel Pinheiros, em Teresópolis, que está abandonado
Tébaro Schmidt / ge
Interior do Hotel Pinheiros, em Teresópolis, que está abandonado
Tébaro Schmidt / ge
Uma das fotos mais famosas de Pelé e Garrincha juntos foi tirada no Hotel Pinheiros. Nela, os dois aparecem sorridentes, com calça e camisa da Seleção, na área verde que existia à frente do chalé principal. O zagueiro Brito, ex-Vasco, Flamengo e tricampeão do mundo com o Brasil em 1970, também está na imagem.
Como não há perspectiva de reformar o local ou negociações em andamento para repassar o imóvel, o Hotel Pinheiros seguirá do jeito que está por tempo indeterminado.
Foto famosa com Pelé, Garrincha e Brito foi tirada no Hotel Pinheiros, em 1966. O mesmo local hoje está abandonado
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O estádio sem memória
Como a Granja Comary só foi inaugurada em 1987, os jogadores da seleção brasileira de 1966 fizeram suas atividades em diferentes locais da cidade. Um deles, mencionado diversas vezes em notícias de jornais da época, foi o “campo do Teresópolis”. Trata-se do Estádio Antonio Savattone, localizado na Rua Ernesto Silveira, no bairro de Nossa Senhora de Fátima. A cinco minutos de distância do local no qual Ancelotti e seus comandados vão iniciar a preparação para a Copa.
Abandonado: ge te leva para conhecer estádio em Teresópolis usado por Pelé e Garrincha
A casa do Teresópolis Futebol Clube, fundado em 1915, recebeu ao menos dois amistosos da Seleção naquele período. No dia 8 de maio, os reservas perderam por 1 a 0 para o Bangu, e os titulares venceram o America por 4 a 1, com gols marcados por Rinaldo, Servílio e Silva (duas vezes).
Garrincha fez parte do time titular, mas Pelé não atuou. O Rei chegou à cidade serrana com dores no tendão do pé esquerdo e foi poupado da maior parte da preparação – chegou a ter “forte enxaqueca” por causa de uma dose de vermífugo, segundo o Jornal dos Sports. Não é possível afirmar que Pelé jogou no campo do Teresópolis, portanto. Mas ele esteve lá com a delegação e chegou a receber a visita dos pais, Dona Celeste e seu Dondinho, na arquibancada do estádio.
Em 1966, Pelé recebeu a visita dos pais na arquibancada do campo do Teresópolis, durante preparação da seleção brasileira
Arquivo / Jornal dos Sports
Como forma de reconhecimento pelos serviços prestados, o estádio recebeu uma “placa comemorativa da visita da seleção brasileira”, com data de maio de 1966. O artefato até pouco tempo ainda podia ser visto logo no corredor de entrada. Mas, no dia em que a reportagem do ge foi ao local, só havia o espaço vazio na parede.
A prefeitura de Teresópolis informou que a placa foi removida para evitar furto, mas não soube dizer quando isso ocorreu nem onde ela estaria armazenada.
Foto recente mostra que a placa ainda estava no estádio, mas, quando o ge visitou o local, ela havia desaparecido
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A situação do estádio é péssima. A última competição oficial disputada pelo Teresópolis foi a Série C do Carioca de 2019. Por esse motivo, desde então o local praticamente não foi mais utilizado. Em 2023, o clube foi desfiliado da Federação do Rio por causa do tempo de inatividade.
A grama do campo cresceu de tal maneira que é difícil encontrar as balizas, com árvores e arbustos fixando as raízes cada vez mais fundo no solo. Dá para acessar o gramado por uma abertura na lateral da tela e caminhar com dificuldade até onde um dia foi o meio de campo. O matagal toma conta do resto.
Campo do Teresópolis, que já recebeu Pelé e Garrincha, tem mato alto e está completamente abandonado
Tébaro Schmidt / ge
As paredes de um dos vestiários estão queimadas, e o odor forte denuncia que o espaço vem sendo frequentado por pessoas em situação de rua. Já as tribunas onde 60 anos atrás profissionais de imprensa certamente se amontoaram para cobrir os amistosos da seleção brasileira acumulam lixo e infiltrações no telhado.
– É muito triste – resume Érika Marra, secretária de esportes de Teresópolis.
– Mas a gente sempre se enche de esperança. A gente está correndo atrás para que venha algum resultado positivo, em busca de verbas e emendas para que a gente consiga dar o levante no nosso campo – completou.
Visão da arquibancada mostra o mato alto e os arbustos espalhados pelo campo do Teresópolis
Tébaro Schmidt / ge
O Estádio Antonio Savattone, por muito pouco, não foi leiloado no mês passado. A Justiça penhorou o imóvel em 2020 graças a uma dívida de R$ 40 mil do clube com dois credores e chegou a agendar o leilão para o dia 29 de abril, mas o evento foi suspenso graças a uma ação da prefeitura de Teresópolis. O campo havia sido avaliado em R$ 11,78 milhões.
Banco de reservas do campo do Teresópolis está tomado pelo mato
Tébaro Schmidt / ge
Os advogados defendem a tese de que o estádio pertence ao município e, portanto, não pode servir para abater dívidas do clube. Em 1963, a prefeitura transferiu a posse do imóvel para o Teresópolis, com a condição de que o clube concluísse as obras de ampliação do estádio no prazo de cinco anos (até 1968, portanto); e de que o espaço fosse destinado à prática de “esportes em geral, em suas diversas modalidades”.
Escadas que dão acesso às arquibancadas do estádio do Teresópolis: paredes descascadas e situação lastimável
Tébaro Schmidt / ge
O contrato acrescenta que “o não cumprimento dessas obrigações dentro do prazo convencionado ou a destinação do imóvel para outras finalidades” acarretaria a imediata rescisão do acordo. A tese foi acatada pela juíza da 2ª Vara Cível da Comarca da Capital.
Para que não restasse dúvida, a prefeitura se apressou em fixar um aviso de “propriedade municipal” na entrada do estádio. O processo dos dois credores segue em curso.
Aviso na entrada do estádio do Teresópolis informa que imóvel foi revertido ao patrimônio imobiliário municipal
Tébaro Schmidt / ge